domingo, 14 de junho de 2015

Tudo é Novo e se Renova

Tudo é Novo e se Renova

"No breu, de olhos bem abertos, rostos mascarados e música macabra é que somos recebidos na porta da sala do USINA, onde ocorreu a primeira temporada de O Novo Espetáculo- Tudo Está à Venda do Grupo Tripé que é formado por quatro jovens atores brasilienses – Ana Quintas, João Pedreira, Gustavo Haeser e Davi Maia -  e está em seu segundo espetáculo.
Em parceria com o ator e diretor Similião Aurélio, o Tripé mostrou à que veio com a camaradagem dos amigos para a realização do projeto – fizeram uma página muito bem humorada com diversas coisas à venda – com a cara e com a coragem: levantou este espetáculo sem o auxílio dos programas de apoio à cultura do Distrito Federal que está em decadência absurda. O momento atual que vivemos é o vale de ossos secos para a arte. No entanto, existem corações pulsantes, mentes inquietas, artistas inconformados que querem bradar o grito de liberdade. Em meio às cinzas da angústia artística, brotou uma flor radiante que espalhou suas sementes através do vento e disseminou a esperança, a resistência, o querer, a fome, a sede, a necessidade de bradarmos juntos em defesa do que somos, do que queremos.
Em cena, não havia personagens. Eram os quatro atores sendo eles mesmos, falando e fazendo o que mais os instigam, se divertindo, provando, afetando uns aos outros, ao público. É claramente notável a paixão fervente que há em cada um deles em cena ou fora. Na verdade, não sei definir o que é fora ou dentro; creio que tudo é cena.
O bom humor permeou todo o espetáculo que há como carro chefe um apelo político pulsante. A forma com a qual a ditadura é abordada e atualizada é eletrizante. Traz a força de luta para os jovens reclamões da era digital; cheios de opiniões e ações congeladas. Há uma proposta de atacarmos ao ditador Haeser II com as bolinhas que usou para tentar derrotar o jovem herói Maia. Todos estávamos ao lado do herói e chuva de bolinhas voaram em direção ao palanque do ditador. Essa é uma forma simbólica e ao mesmo tempo concreta de ação: é preciso agir, algo tem que ser feito! Eles fizeram O Novo Espetáculo e nos carregou a fazermos também.
Sem cadeiras, sem muitas regras, sem divisão palco-platéia, O Novo Espetáculo é um acontecimento repleto de surpresas e subversões – incluindo o pagamento do ingresso, que é feito ao final do espetáculo. Quebras inesperadas e transições com brincadeiras adotadas, tudo acontece em uma enxurrada de dinâmicas construídas pelos atores e perpetuada pelo público. Só se define público pelo fato de não termos ensaiado com eles o roteiro, nem termos falas decoradas, mas as brincadeiras – dança da cadeira, vivo-morto, seu mestre mandou, pular corda, etc. – ainda temos de cor.
O cenário é composto por dois andaimes, bolas coloridas que surgem durante o espetáculo, bolas de ping-pong que são derrubadas do alto e claro, o publico também faz parte da composição do cenário. Muitos objetos são reaproveitados.
Com a proposta das brincadeiras, o grupo desperta o lado mais vivaz do ser humano: a criança. É escancarada a diferença entre quando o publico entra no teatro ainda sem saber direito o que está acontecendo, à procura das convencionais cadeiras ou arquibancadas, não sabe se fica no centro do espaço e logo correm para as extremidades para não se expor. De repente os atores assumem que é tudo uma grande farra e leva, gradativamente, um por um para esse universo, de maneira generosa, acariciando, despertando as crianças dorminhocas de dentro de cada um. Ao final, os adultos que já não estão mais, são dominados por suas crianças e estão jogando bola uns nos outros, brincando de estátua, participando. O brilho é tão gritante que chega a emocionar. Não estão mais preocupados com protocolos e convenções. O grande botão do foda-se é apertado com toda vivacidade da vida e a experiência é gerada.

Procurar intelectualizar a experiência vivida naquela sala é uma perda de tempo. Deixo aqui algumas pontinhas dos icebergs da vivência como provocação para irem à esse encontro, se conhecer, bradar o grito da liberdade junto com o Grupo Tripé e unir-se ao “Partido Independente de Todos Unidos”. “ – Você se sente injustiçado, Gustavo?” “ – Não, eu me sinto pessoa solta!”"
Isabella Baroz sobre O NOVO ESPETÁCULO (Tudo Está à Venda)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Texto. encONTROO!

"Uma inquietação que sobe por cima e desce escorrendo pelos dedos soltos. Pessoa solta. É tudo de verdade, mas se você acreditar pode virar representação, pode virar outra coisa, pode virar inquietação. Tudo de novo e voltamos ao começo e voltamos no desejo de dizer o que nos chama. O sangue pulsa nas veias e passeia pelo meu ser me tornando cada vez mais insaciável e tomado pelas palavras que não se calam e não me deixam dormir. Eu nem sei se quero mesmo dormir, não se quero me render à ilusão que é estar sujeito a ver o que minha mente planeja dentro de si. Mas as palavras me deixam cada vez mais sujeito. Eu só quero sair, só quero brincar, só quero tirar a roupa e dançar na chuva, quero pular corda e beijar um estranho. Me leva nessa viagem porque aqui eu não quero ficar. Não quero mais esse lugar quieto, dormente, sereno. Quero as noites frias e o descontentamento com o amanhecer. Eu quero que o dia dure uma semana e que essa semana seja o meu fim. Eu quero despertar. Quero seguir o pulso latente que me percorre por dentro e me tira da cama todas as manhãs que estou fadado a não reagir. Quero a brincadeira de me vestir diferente e reagir consciente ao poder que guardo aqui dentro. A gente sabe que o possui. Mas a gente não usa, a gente se acostuma e não revida quando leva porrada na cara. A gente vira as costas. Tá na hora de dar o murro. É nossa rodada no jogo. Nosso desejo. O povo. Outro dia eu presenciei uma fala que não acreditei, não consegui entender como aquela frase havia saído da boca de uma pessoa que eu julgava consciente das coisas. A luta deve vir de dentro, deve começar no peito e desabrochar até o pé, que finca no chão e não se arreda até conseguir. Vamos agora dançar e celebrar a alegria de estar aqui. Vamos pulsar junto dessa bateria. Vamos celebrar a alegria da luta e a força conjunta que nos cabe aguentar. Vamos alegrar que a batalha há de se findar para, enfim, podermos sentar. É tudo de verdade, mas se você acreditar pode virar relação, pode virar outra coisa, pode virar revolução."

domingo, 7 de junho de 2015

teatro-encontro

"A partir da teoria da “estética relacional” proposta por Nicolas Bourriaud, o artigo desenvolve uma concepção do teatro como um estado de encontro, um fenômeno que só acontece em um espaço-tempo compartilhado entre atores e espectadores, condicionado por um mecanismo de autopoiesis: teatro como um processo que gera eventos e não obras acabadas, que só acontecem em relação. Esta dimensão pode ser identificada com muita intensidade nos processos criativos da cena, que implicam uma dinâmica coletiva de trabalho baseada na colaboração: uma máquina que provoca e administra encontros. Um processo de ensaios é um laboratório de sociabilidade que demanda a convivência de heterogeneidades e contradições: autonomia e acoplamento coexistindo em um sistema autopoiético de relações. A ideia do teatro como estado de encontro significa uma busca por um tipo de fazer teatral que assume, intensifica e amplia sua própria dimensão relacional, buscando modelar universos possíveis, em uma experiência em que a ética não está dissociada da estética."

Patrícia Fagundes, diretora da Cia. Rústica