domingo, 25 de janeiro de 2015
1.8 Pirotecnia
Inventadas pelos chineses, mas nunca desenvolvida para a guerra – um bom exemplo de Terrorismo Poético – uma arma usada para disparar choques estéticos em vez de matar – os chineses odiavam a guerra e costumavam entrar em luto quando os exércitos se levantavam – a pólvora era mais útil para espantar demônios malignos, deleitar crianças, saturar o ar com uma bruma de bravura e com o cheiro de perigo. Rojões de terceira categoria da província de Kwantung, foguetes, borboletas, M-80’s, girassóis, “Uma Floresta na Primavera” – clima de revolução – acenda seu cigarro com a espoleta chamuscada de um rojão negro – imagine o ar repleto de lêmures e íncubos, espíritos opressores, policiais fantasmas. Chame um garoto com um bastão em brasa ou um fósforo aceso – apóstolo-xamã de enredos de verão de pólvora – estilhace a noite escura com pitadas e cascatas de estrelas infladas, arsênico e antimônio, sídio e calomelano, um corisco de magnésio e um silvo estridente de picrato de potassa. Mande brasa (negro-de-fumo e salitre) a ferro e fogo – ataque o banco ou a horrível igreja de seu bairro com velas romanas e foguetes púrpura-dourados, de supetão e anonimamente (talvez lançados da carroceria de uma picape em movimento). Construa estruturas entrelaçadas com vigas de metal nos tetos dos edifícios de companhias de seguro ou escola – serpente cundalini ou dragão do Caos verde-bário enrolado contra um fundo de amarelo-sódio – Não Pise em Mim – ou monstros copulando e arremessando bolas de fogo na casa de velhos batistas. Escultura de nuvens, escultura de fumaça e bandeiras = Arte do Ar. Obras de Terra. Fontes = Arte da Água. E fogos de artifício. Não se apresente patrocinando pelos Rockefeller e com a autorização da polícia para uma audiência de amantes da cultura. Evanescentes bombas-mentais incendiárias, mandalas assustadoras inflamando-se em esfuma¸cadas noites suburbanas, alienígenas nuvens verdades da peste emocional detonadas por raios vajra17 azuis de orgônio18 , feux d’artifice a laser. Cometas que explodem com odor de haxixe e carvão radioativo – demônios do pântano e fogos-fátuos assombrando os parques públicos – falso fogo-de-santelmo piscando sobre a arquitetura da burguesia – correntes de pequenos fogos de artifício caindo no chão da Assembléia Legislativa – salamandras-elementais19 atacando conhecidos reformados de moral. Goma-laca flamejante, açúcar do leite, estrôncio, piche, água viscosa, fogo chinês – por alguns momentos o ar é puro ozônio – uma nuvem opala de pungente fumaça de dragão/fênix se espalhando. Por um instante, o Império cai, seus príncipes e governadores fogem para sua podridão satânica e nebulosa, penachos de enxofre dos elfos atiradores de chamas queimando suas bundas chamuscadas, enquanto eles recuam. O Assassino-criança, psique de fogo, mantém o poder por uma breve noite escaldante da estrela Sírio.
Hakim Bey
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
sobre os medos
nunca tive medo de fantasma, de monstro.
sempre tive medo de ladrão, de estuprador, pedófilo.
eu conferia cada armário, tinham muitos.
quando andava na rua, tinha medo das pessoas de terno e com óculos escuros.
eu tinha certeza. uma grande conspiração pra me sequestrar e me torturar, talvez me traficar sexualmente para qualquer lugar remoto do mundo.
hoje não confiro mais os armários, mas confesso que ainda tenho um pé atrás com pessoas bem vestidas, de terno, relógios tecnológicos e óculos escuros.
hoje tenho medo da vida, e só dela
sempre tive medo de ladrão, de estuprador, pedófilo.
eu conferia cada armário, tinham muitos.
quando andava na rua, tinha medo das pessoas de terno e com óculos escuros.
eu tinha certeza. uma grande conspiração pra me sequestrar e me torturar, talvez me traficar sexualmente para qualquer lugar remoto do mundo.
hoje não confiro mais os armários, mas confesso que ainda tenho um pé atrás com pessoas bem vestidas, de terno, relógios tecnológicos e óculos escuros.
hoje tenho medo da vida, e só dela
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
TP
Dançar de forma bizarra durante a noite inteira nos caixas eletrônicos dos banco.
Apresentações pirotécnicas não autorizadas. Land-art, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alienígenas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas.
Sequestre alguém e o faça feliz.
Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme, inútil e impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilômetros quadrados na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma coleção de manuscritos de alquimia.
Mais tarde, essa pessoa perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de existência.
Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (públicos ou privados) onde você teve uma revelação ou viveu uma experiência sexual particularmente inesquecível..
Fique nu para simbolizar algo.
Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles não satisfazerem a sua necessidade de indolência e beleza espiritual.
A arte do grafite emprestou alguma graça aos horríveis vagões do metrô e sóbrios monumentos públicos – a arte-TP também pode ser criada para lugares públicos: poemas rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de pára-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso, transmissões de rádio piratas.
Desenhar em cimento fresco...
A reação do público ou choque-estético produzido pelo TP tem de ser uma emoção tão forte quanto o terror – profunda repugnância, tesão sexual, temor supersticioso, súbitas revelações intuitivas, angústia – não importa se o TP é dirigido a apenas uma ou várias pessoas, se é “assinado” ou anônimo: se não mudar a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.
TP é um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras de poltronas, sem ingressos ou paredes.
Pare que funcione, o TP deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia).
Mesmo as táticas da guerrilha Situacionista do teatro de rua talvez já tenham se tornado conhecidas e previsíveis demais.
Uma primorosa sedução praticada não apenas em busca da satisfação mútua, mas também como um ato consciente de uma vida deliberadamente bela – talvez isso seja o TP em seu alto grau.
Os Terroristas-Poéticos comportam-se como um trapaceiro totalmente confiante cujo objetivo não é dinheiro, mas transformação.
Não faça TP Para outros artistas, faça-o para aquelas pessoas que não perceberão (pelo menos não imediatamente) que aquilo que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite politicagem, não argumente, não seja sentimental.
Seja brutal, assuma riscos, vandalize apenas o que deve ser destruído, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vida – mas não seja espontâneo a menos que a musa do TP tenha se apossado de você.
Vista-se de forma intencional.
Deixe um nome falso.
Torne-se uma lenda.
O melhor TP é contra a lei, mas não seja pego.
Arte como crime; crime como arte.
Apresentações pirotécnicas não autorizadas. Land-art, peças de argila que sugerem estranhos artefatos alienígenas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Poético-Terroristas.
Sequestre alguém e o faça feliz.
Escolha alguém ao acaso e o convença de que é herdeiro de uma enorme, inútil e impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilômetros quadrados na Antártica, um velho elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma coleção de manuscritos de alquimia.
Mais tarde, essa pessoa perceberá que por alguns momentos acreditou em algo extraordinário e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de existência.
Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (públicos ou privados) onde você teve uma revelação ou viveu uma experiência sexual particularmente inesquecível..
Fique nu para simbolizar algo.
Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles não satisfazerem a sua necessidade de indolência e beleza espiritual.
A arte do grafite emprestou alguma graça aos horríveis vagões do metrô e sóbrios monumentos públicos – a arte-TP também pode ser criada para lugares públicos: poemas rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de pára-brisas de carros estacionados, slogans escritos com letras gigantes nas paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários previamente eleitos ou escolhidos ao acaso, transmissões de rádio piratas.
Desenhar em cimento fresco...
A reação do público ou choque-estético produzido pelo TP tem de ser uma emoção tão forte quanto o terror – profunda repugnância, tesão sexual, temor supersticioso, súbitas revelações intuitivas, angústia – não importa se o TP é dirigido a apenas uma ou várias pessoas, se é “assinado” ou anônimo: se não mudar a vida de alguém (além da do artista), ele falhou.
TP é um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras de poltronas, sem ingressos ou paredes.
Pare que funcione, o TP deve afastar-se de forma categórica de todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publicações, mídia).
Mesmo as táticas da guerrilha Situacionista do teatro de rua talvez já tenham se tornado conhecidas e previsíveis demais.
Uma primorosa sedução praticada não apenas em busca da satisfação mútua, mas também como um ato consciente de uma vida deliberadamente bela – talvez isso seja o TP em seu alto grau.
Os Terroristas-Poéticos comportam-se como um trapaceiro totalmente confiante cujo objetivo não é dinheiro, mas transformação.
Não faça TP Para outros artistas, faça-o para aquelas pessoas que não perceberão (pelo menos não imediatamente) que aquilo que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite politicagem, não argumente, não seja sentimental.
Seja brutal, assuma riscos, vandalize apenas o que deve ser destruído, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vida – mas não seja espontâneo a menos que a musa do TP tenha se apossado de você.
Vista-se de forma intencional.
Deixe um nome falso.
Torne-se uma lenda.
O melhor TP é contra a lei, mas não seja pego.
Arte como crime; crime como arte.
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