Ela se despede. O carro sai voado dali. Estacionamento
escuro. Ele pensa em tudo que poderia ter feito naquelas pequenas horas que
aqueles dois seres passaram dentro de um espaço tão pequeno, um carro. Apesar
do frio abre as janelas, os vidros embaçados precisam refrescar, os vidros
embaçados escondem uma vontade. Que medo. Ele pensa. Uma garrafinha de água
aparece rolando por de baixo do banco. Que medo. Ele pensa. De repente, até o
caminho de casa, a única coisa que ele conseguia pensar era nela. E no carro. E
nas janelas embaçadas. E em uma noite. E quantas mais noites seriam necessárias
para que ele, medroso, parasse de sentir medo, e simplesmente seguisse em
frente. O medo, não era um medo qualquer... não era medo de se apaixonar, não
era medo de amar, não era medo. Era alguma coisa que pra facilitar a sua vida
ele chamava de medo. Meio bêbado, fez a curva da quadra, entrou na direção do
seu prédio, e de repente parou. E pensou que se não fosse agora, não seria
nunca. Deu meia volta, 120 km/h, refez todo o percurso. Naquela hora só
palavras preenchiam sua mente. Vai. Agora. Um. Dois. Segundos. Voltou,
estacionou. Estacionamento escuro. Ele pensa em tudo que quer falar, em tudo
que a cerveja de mais cedo fez querer
falar. Acertou o andar, tocou a campainha.
Ela atendeu, camiseta, calcinha,cara de sono.
E de repente. Dois segundos. Empurrou ela na parede, e não precisou
dizer mais nada. Na verdade, nunca havia precisado. De alguma forma, ele sabia
e ela também que eles tinham que estar.
Ele se despediu.
Nunca mais se viram.
Quadras e quadrados.
Seguiram.
De alguma forma, ele sabia e ela também que eles tinham que
estar, mas era só.